São Paulo Escondeu seus Rios: urbanização e canalização dos rios

Escassez de água

22 de Julho de 2014

Quantas vezes já passamos por algum lugar até um dia perceber algum detalhe que antes parecia escondido? Se a cidade for uma metrópole, como São Paulo, a sensação é mais do que um sentimento isolado - é uma percepção coletiva que apresenta todos os dias surpresas para o cidadão da terra da garoa. Um bom exemplo disso é a quantidade de rios “invisíveis” aos olhares mais atentos, que parecem ter “sumido” graças à urbanização acelerada ou a canalização. Em tempos de Copa do Mundo, torcedores bradam a plenos pulmões o hino nacional a frase que melhor exemplifica o tema do artigo de hoje: “ouviram do Ipiranga às margens plácidas”. O mesmo riacho em que outrora foi declarada a independência do Brasil, hoje passa despercebido em uma avenida. Em certos trechos, é alvo de despejos de esgoto até desaparecer soterrado pelo asfalto para dar lugar ao fluxo contínuo de carros. Mas ele não está só. Assim como ele, outros rios têm o mesmo destino. As principais vias de entrada da cidade, as Marginais Tietê e Pinheiros, abrigam outros dois rios de mesmo nome, igualmente canalizados e depósito de muita sujeira.

Obstáculo à modernidade?

O homem passou a enxergar as águas a céu aberto – outrora fonte de vida – como um obstáculo ao progresso a partir do início do século XIX. O Rio Tamanduateí, principal fonte de vida e pesca na cidade, passa hoje despercebido ao lado do Mercado Municipal, muito próxima à 25 de Março, principal rua de comércio popular de São Paulo. A Avenida Nove de Julho foi construída sobre o córrego Saracura e a 23 de Maio sobre o Itororó. Durante a gestão do prefeito Prestes Maia, foi proposto um plano de avenidas e o espaço das águas aos poucos tornou-se o espaço dos carros  sendo eliminados quatro mil quilômetros de riachos, córregos e suas margens, que poderiam ter sido aproveitadas como ótimas opções de lazer e transporte eficiente a exemplo do que ocorre em metrópoles como Paris e Moscou.

Na década de 20, dois rios que dividiam a cidade foram apontados como obstáculos para o crescimento da cidade e então foram canalizados e enterrados para construção de parques. Vide abaixo:

    rios1Parque do Anhangabaú

 Com o crescimento acelerado da metrópole, em pouco tempo foi deparada com a mesma condição, barrada entre rios, dessa dessa vez era o Pinheiros-Tietê. Eram rios de planície, característicos por serem lentos e serpenteados. Em épocas de cheia passavam por mutações naturais, mudança de formas e lugares. Porém, essa transformação acontecia dentro de sua superfície de várzea de inundação periódica do rio. Já era sabido que neste leito maior não era um terreno apto para qualquer tipo de construção, seja rodovias ou moradias. Mas não foi o que aconteceu e uma população mais pobre começou a ocupar estes locais e consequentemente foram castigados devido à  inundação.

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Rio Pinheiros-Tietê

A água encanada

Em 1978, foi fundado o primeiro sistema de abastecimento de água da cidade de São Paulo, o sistema Cantareira. Quanto maior a população, maior o consumo de água, e consequentemente aumenta a geração de esgoto. Com isso, a solução escolhida foi transformar o rios, afundar o seu leito e cortar suas curvas para possibilitar o transporte mais rápido do esgoto despejado nos rios para longe dos olhos da população.

Consequências sérias ao homem e à natureza

A falta de planejamento urbano, o crescimento desordenado e o pensamento de canalizar rios e esgotos fez com que problemas sérios de enchentes e morte da fauna local viessem, literalmente, à tona. Primeiro porque os rios são fundamentais para regular o clima, à biodiversidade e à vida. Sem obstáculos naturais, os rios correm rápidos e retos em canais, causando inundações quando a água atinge altas velocidades em determinados trechos. Como o leito é revestido de material impermeável, o que se vê nas grandes cidades é o escoamento da água, agora retida na superfície, provocando inundações em áreas mais baixas. Outro grande problema de rios e córregos canalizados é limpar os canais e galerias. São procedimentos difíceis e perigosos, já que o acesso é complicado.

Escondidos, mas ali

Os rios podem estar escondidos muitas vezes da paisagem urbana, mas continuam existindo. No caso de São Paulo, estão doentes e enterrados, mas ainda vivos. Ao todo são 1.500 km de rios, riachos e córregos espalhados pela cidade. Tratá-los e recuperá-los é preservar o meio ambiente, a paisagem e, sobretudo, obrigação de todos. Planejar o crescimento urbano respeitando os recursos hídricos deve fazer parte da estratégia de governo, devidamente cobrada pela sociedade.

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  Córregos canalizados cortam diversas regiões do centro às periferias da cidade

Entre Rios

O documentário a seguir mostra um pouco de como aconteceu toda essa transformação em São Paulo, trazendo um relato histórico sobre o desenvolvimento rodoviarista que modificou tão profundamente a vida e os costumes dos paulistanos. ”Entre Rios” foi produzido pelo coletivo Santa Madeira e é um daqueles registros fenomenais que vale a pena rever sempre.

Entrerios

Cabe a nós escolher o espaço que queremos morar, o que vamos preservar, o que vamos cuidar, o que vamos ter?

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